Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006

Portalegre tão longe e tão perto!

 

 

Depois de dissertações pungentes, recheadas de parcialidade e pessoalidade, elaboro outra exegese, igualmente lancinante, onde a única diferença é a aparição da racionalidade proporcionada pela existência de uma temo de comparação. Falo da minha terra, mas comparo-a com outra que, agora, é a minha!

Fazendo uma viagem pelas divagações públicas a que me dão direito, reparo que as paragens deveram-se a estados anímicos bem díspares que se consubstanciaram numa sensação inextricável: a de pertença a Portalegre! Primeiramente, surgiu a consciência e confissão da identidade própria indissociável da cidade; entretanto a verbalização de um saudosismo precoce proporcionado pela aproximação da ausência e distância diária a Portalegre; agora a análise aos meus sentidos, que apesar de duvidosa porque de forma alguma equânime, crível. Já me consinto fazê-lo porque não estará adulterada pelo medo do início, mas sim consolidada pela passagem do tempo.  

Assumo: tu e ela são incomensuravelmente antitéticas! Lisboa e Portalegre: são um antagonismo físico reiterado por assimetrias sociais flagrantes. A discrepância entre as duas é representativo de um conflito interno difícil de solucionar. Uma bipolarização citadina fungível a uma ambivalência interior.

Portalegre está cada vez mais longe e igualmente perto. Distante dos sonhos, ou melhor, da sua concretização. Próxima do que me preenche, do que me invade e repõe a minha essência. No fundo e na verdade do que faz de mim um ser. Redimo-me antecipadamente pela presunção da assunção, mas teimo em contrariar Décartes, não existo porque penso mas porque sinto. Inalienável a esta premissa é ser inteiramente quando aqui estou. Ainda és o fosso onde nos esquecemos do Mundo e só nos lembramos da Humanidade. Sou mais Pessoa em Portalegre.

Não te quero perder, mas insisto em desconsiderar-te. As instâncias que me ligam ao materialismo exterior e impõem a necessidade de ter, quanto mais não seja de uma profissão idónea, ostracizam-te. Sinto-me uma autêntica parricida que aniquila a progenitora. Convivo com uma nostalgia diária onde se insurgem os sinais dos teus traços: o ar gélido que nos congela o corpo mas aquece a alma por sentir-mos que se entranha uma réstia da Natureza sincera que subsiste; o verde da Serra que é um elixir da vida, uma promessa de que a perfeição não é quimera e é passível de apreensão; o cheiro do velho, do antigo, do rústico das tuas muralhas, castelo e igrejas que relembram, a quem se deixa esquecer, que somos História, um legado para seres vindouros;

Lisboa é a correria, a incursão angustiante de horários que não existem porque o tempo se limita a passar sem parar. Lisboa,  o espelho primordial do lusitano, é o movimento promíscuo de corpos e passagem célere de transportes, ou seja, pessoas que se confundem com objectos porque se circunscrevem ao que caracteriza as últimas. Pessoas que o são, meramente, por características físicas inseparáveis ao Homem, e não por sintomas de um humano. Não falam, não olham, não param nem reparam, sinceramente acho que não pensam nem sentem, restringem-se à acção ou execução. Lisboa é o paroxismo da automatização. Aquele ar é sujo pela poluição sentimental que paira na comunidade onde a noção de unidade não existe. A pureza é uma miragem. Extirparam a primeira condição de ser, conviver! Adjudicaram a alma ao diabo, porque vendem frivolamente a suas vidas à rotina desenfreada e à aspiração de cumprir, de chegar, de sair, de voltar... Latente está a sensação de irem e voltarem de um local, mas nunca pararem em algum sitio. De procurarem e tentarem encontrar um espaço, e funestamente se acomodarem ao hábito de nunca o alcançarem. A explicação reside no sofisma de que se alimentam: procurar sem perseguir o que perderam há muito, a consciência do que são e do que se tornaram. O tempo e a obsessão em controlá-lo ,mesmo que para isso se prescinda de valores que deviam ser imperórios à sociabilidade, são paliativos da sua existência e humanismo. Ébrios pelo cumprimento da agenda quotidiana esquecem-se que a certeza só existe agora, o amanhã é vago, o passado nem perene na memória!  Assim, em Lisboa sinto-me terrivelmente mais perto da condição de ter em detrimento do ser.

Esta amálgama de sensações remete-me para uma certeza: tu já és, Lisboa terá de ser! Encontrei-me aqui ainda não me conquistei lá! Lisboa ainda é uma apriorismo débil sustentado, apenas, pela inanidade da imaginação. Portalegre já é empirismo, porque aqui já fiz e já sou. Não é uma projecção, é realização. Não é crepúsculo, mas definitivamente refulgência.

Não obstante à aparente tristeza legitimamente associada ao texto, a verdade é que refuto o carácter negativo que Cesário Verde ou outros imputam à capital. A rejeição da sua conduta não se deve à inadaptação, mas antes á insistência de querer conservar e perpetuar o que para mim é primário: ser!, ainda que numa cidade que dificulta estabilidade desta sensação.

O maniqueísmo a que vos confino – Lisboa e Portalegre – fundamenta-se tão somente numa dualidade intrínseca ao Homem: os momentos em que é, e os restantes em que procura ser porque muda!

Tanta retórica, por um lado, para demonstrar que quando reivindico e te reclamo por mudança incessante é porque o crescimento é seu corolário. Por outro e concomitantemente, para prescrever definitivamente aos que acolhes que não és obsoleta, retrógrada ou indubitavelmente pior. Como vês preconizas o que, de uma forma nefasta, se proscreve progressivamente: a existência e o humanismo. Não deturpes as críticas mordazes, não são sintomáticas da aversão ou repúdio, antes de uma vontade inefável que te emancipes.  No fundo anseio para ti, o que para mim diligencio!


publicado por portalegreeomundo às 23:23
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2 comentários:
De R1sk3z a 19 de Dezembro de 2006 às 15:31
Hello stranger,

Ainda ñ me foi desta que me deste o URL bem, mas "when there's a will there's a way" e eu já tinha dado com o teu blog logo depois do jantar.

Um abraço


De R1sk3z a 22 de Dezembro de 2006 às 02:05
Hi again,

O mais estranho dessa noite e da nossa conversa, é que a ideia com que fikei depois de me ir embora, foi a de que não te tinha dito nada dakilo que é realmente importante. É por isso ke odeio "brief encounter" por ter consciencia de que tenho uma maneira de pensar muito propria que por norma vai contra a linha de convicções do resto da população, isso faz com que todos os meus argumentos careçam de elaborada explicação para não ficar ninguem a pensar que digo as coisas que digo da boca pra fora com intuito de escandalizar ou para "ser diferente" ou "rebelde". É por isso que ñ gosto muito de falar sobre temas polemicos sobre os quais tenho uma opinião formada que ñ é tão politicamente correcta, em encontros de curta duração, pk nunca dá tempo de explicar os porquês. E o estranho do jantar foi depois da nossa conversa de, sei lá, 1h, entre gritos e bebedeira, sair de lá com a impressão de que ñ te tinha dito nada sobre mim, ou achares que a tua 1ª impressão, afinal de contas tinha sido a mais correcta.

Um abraço Catarina, e um feliz natal.


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