Sábado, 20 de Janeiro de 2007

O fim como o principio de um início!

 

O fim impele por norma ao acto que devia ser quotidiano: a reflexão. Pensamos no que fizemos, dissemos…no que preterimos e optamos…no logro e malogro…nos sonhos e concretizações. Só com este balanço anual, praticamente imperório, conseguimos construir uma linha condutora que atribua sentido a tudo o que passou. Somente com a meditação retrospectiva chegamos às respostas que procuramos incessantemente e diariamente. O culminar assusta, não só porque representa o findar de algo a que, bom ou mau, nos habituamos, mas porque compele ao início, começo ou recomeço de qualquer outra coisa. E o desconhecido é medonho! É curioso como a passagem de um dia remete para uma mudança exorbitante. Demonstra como estamos dependentes do exterior assim como nos agarramos às suas contingências: o fim do ano não é só o começo de um outro, mas sobretudo o início de uma nova vida!

Portalegre é uma síntese de cada um de nós e de todos. Enquanto viveu nem ela nem nós víamos sentido para as suas opções. Era um alvo de críticas categóricas e condenações peremptórias. Agora trespassado uma ano é um poço de glórias, onde a evolução é inolvidável. O paradoxo é incompreensível, mas  a verdade é que a vida quando vivida é sempre encarada de uma forma lúgubre e soturna, vazia e carente de explicações para o que sucede e acontece; a vida quando relembrada é perfeita, a justificação para os momentos maus surge e encaixa no aparecimento dos bons que procedem. A memória é como uma máquina fotográfica, o seu resultado é apenas um retrato seleccionado, ludibriado por uma escolha involuntária mas subjectiva. Se devemos confiar neste dom da reminiscência porque nos confere bem-estar, ainda que temporário, porque se exalta o lado positivo da vida, devemos duvidar da mesma pela sua incapacidade de reter a totalidade e obedecer a uma linearidade. E por tudo isto advogo a necessidade de cogitação todos os dias, não podemos passar por nós e pelo que nos rodeia esperando perceber o que se passa só quando termina. Porque inalienável à sensação fantástica de tudo fazer sentido , vêm sempre as suposições que nos deixam desesperados e a certeza de que uma outra escolha ou decisão teria alterado tudo. O tempo, e consequentemente o ano, é relativo porque a sua celeridade ou morosidade depende exclusivamente da posição individual, do processo de interacção. Ou então como se explicaria que uma noite com a mesma duração de todas as outras representasse a metamorfose das nossas vidas?

Viver, sonhar, sentir e pensar devem ser prescrições constantes! Temos uma incapacidade indescritível de lidar com o presente e por isso alegamos a sua inexistência. Tudo porque somos incapazes de conviver a com o que não detemos uma posição hegemónica e manipuladora: o passado está ao serviço do que escolhemos proscrever e apagar e optámos por guardar, o futuro é o peão da arbitrariedade da imaginação. É a inanidade que se afasta sempre que nos aproximamos, cuja unidade que o define é o “depois”, para qual se remetem os projectos. Se longínquo está este tempo, distante se encontra o que o constitui, ou seja, a segunda melhor parte da vida: o sonho, porque a primeira é a sua vivência.

Para quê esperar pelo dia 1, quando podemos ser o que queremos e realizar o que conjecturamos já no dia 31? Julgar que a alteração do número é sinónimo de uma mudança irrefragável no individuo é protelar a estagnação e permanecer inebriado por uma esperança cuja materialidade cabe nas nossas mãos. Esperar é alcançar, indubitável. Mas é concomitantemente desesperar, quando desprovido de aspiração, desejo, ambição e, claro, vontade. Há uma panóplia infindável de situações que nos transcendem, mas não a possibilidade de decidir o nosso rumo. O destino é supremacia do Homem, de forma alguma resultado da transição do ano. Perceber e interiorizar estas  premissas prioritárias  que ignoramos em cada ano é resolver uma série de problemas internos, cuja responsabilidade e solução delegamos no omnipresente metafísico.

O que nos circunda afecta a nossa forma de estar, de agir, de pensar mas nunca o intrínseco e a essência de cada um. O exterior é tão só um adjuvante e paliativo. Esquecer esta certeza é sucumbirmos à tentação da automatização e descriminar o que nos diferencia, a capacidade de discernir, a faculdade de pensar, o poder de sentir e acima de tudo  a aptidão para consubstanciar estas instâncias.  

Que a vontade de expurgar e expiar os erros, da alterar a vida e mudar o Mundo não se restrinja aos míseros segundos em que fechamos os olhos e saudamos o ano novo!

 

 


publicado por portalegreeomundo às 20:07
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