Sábado, 3 de Março de 2007

Meios de comunicação: o destino não está estipulado!

 

Os meios de comunicação são ainda e definitivamente por muito tempo, um quarto poder. O título foi-lhes atribuído aquando disseminação da democracia no pós-Revolução Francesa e teima em não ser obsoleto. Desde sempre foram encarados como um pólo distante do inócuo, razão pela qual desde os seus primórdios são alvos de tentativas ou concretizações de influências. Primeiramente, régias e depois partidárias. O motivo de deterem, paralelamente a outras faculdades, a capacidade de manipular a opinião pública deve-se ao facto de conseguirem consubstanciar duas qualidades difíceis de unificar: a procura do emissor e a atenção do receptor.

As características que reúnem poderão traduzir defeitos ou qualidades, serem associadas ao ominoso ou valorizável, ao pernicioso ou benigno dependendo obviamente da forma como os media se apropriam delas. Informação, opinião, factos, contactos, testemunhas, fontes são algumas das matérias-primas com que trabalham diariamente e lhes permite ter uma panorâmica geral e completa do que testemunham e pretendem trespassar. Não obstante a toda a evolução e progresso de que têm sido vítimas incrementando a exigência de eficácia, a verdade é que tendência tem sido de afastamento do que era suposto ser finalidade primordial e, consequentemente, a desilusão daqueles que estão cientes das funções dos meios de comunicação.

Têm o monopólio da influência porque a manipulação é oblíqua, dissimulada e furtiva. À semelhança da intoxicação pela inalação do gás, que não se sente mas a morte aproxima-se, aqui não se coage a pensar de uma certa forma mas limitam-se os alicerces para que se pense da forma antagónica à pretendida. Através da informação porque precedente ao acto da transmissão existe um processo complexo de selecção, interpretação e reconstrução. Sem nos darmos conta somos conduzidos a encarar e analisar o respectivo acontecimento de uma determinada maneira, e este comportamento, desiludam-se os ludibriados pela isenção ou total imparcialidade do jornalismo, não é inconsciente pela parte que o fomenta, ou seja, os arquitectos da notícia. Notícias não são sinónimo da realidade, mas fruto de um prisma que na altura foi sugerido por terceiros, benéfico à organização ou resultado da subjectividade do profissional, de forma alguma censurável porque acima de tudo é humano e portanto vitima dos defeitos da sua condição. As notícias são ilusões muito bem engendradas, o reflexo de uma suposta realidade que se está refractada não pode ser essa realidade porque é apenas um seu retrato denotando uma óptica e como tal questionável. Dão ideia de coerência, linearidade e clarividência dos factos que as propiciaram, todavia, o processo que as antecede é um imbróglio de interesses e prioridades promíscuas e difusas.

 O ignóbil de tudo o que advogo não é o acto, mas sim a sua prorrogação revestida de propósitos nefastos e deploráveis. Será que não reparamos na celeridade das notícias alusivas a certos protagonistas e a morosidade associada a acontecimentos onde os precursores são dissidentes por alguma razão? Porque será que certas guerras, querelas e quezílias fratricidas e mundiais demoram tanto a alcançarem o estatuo de notícia e a merecerem cobertura diária e outros são imediatamente notícia mesmo que a calamidade seja menor face a catástrofes limítrofes? Porque é que Darfur demorou tanto tempo a ser considerado pelos media um dos maiores flagelos da contemporaneidade e a guerra civil Iraquiana é uma sequência constante de episódios onde todos os dias sabemos o número de mortes? A vida também é avaliada e valorizada em função da proximidade?

 O conceito de sociedade de massas só veio agravar esta tendência e a passividade da audiência agudizá-la.

O entretenimento é outro dos móbeis que faz de nós detentores de uma opinião partilhada e comum à maioria. Não temos muita escolha, o que nos impossibilita a opção de sermos selectivos. A nossa televisão é comprovativo do que atesto. Em quatro canais, e mesmo divergindo no substrato que os sustenta (Estado ou privados), confinam-se a novelas sucessivas onde a disparidade é apenas no sotaque. Os programas culturais são inusitados porque não vale a pena maçar as pessoas com qualquer coisa que exorte o pensamento, afinal de contas pertencermos a um todo massificado tem as suas adversidades. Andamos extenuados da rotina fatídica e a paciência é um bem escasso. Recorrente é a carência de vontade de aprender e incrementar. Crescente é a obesidade do ócio cognitivo em conúbio com o físico. Onde estão as séries, os filmes, os debates, as entrevistas no horário nobre e obedecendo a alguma frequência? Não se reclama uma desproporcionalidade ou a inversão do que sucede actualmente e assim aborrecer a população com o excesso(?!) de sapiência e conhecimento, apenas se reivindica uma maior equidade. Primeiro porque apesar da supremacia pertencer sempre à maioria, acho que as minorias, que não são elites mas apenas pessoas com outras prioridades, não devem ser negligenciadas. Não percebo, portanto, como é admissível que haja espaço para três novelas seguidas e o programa que espoleta o confronto de ideias esteja relegado a um dia numa semana de sete. Em segundo lugar porque também não sei até que ponto é que esta preferência imputada à audiência é verdadeira e crível. Será que os responsáveis pela estipulação da programação são realmente indulgentes conferindo e tentando corresponder sempre às nossas preferências ou essas predilecções são impelidas e criadas pelos media porque favorecem os seus intuitos? Caso se verifique a primeira, a critica é dicotómica. O mal é de ambas as partes: do público, que rejeita acerrimamente a diversidade e assim se encontra num estado deveras preocupante e alarmante ; dos meios de comunicação porque se aproveitam desse estado de indolência mental e em lugar de o erradicarem, fomentam-no; caso seja a segunda hipótese a corrente, a culpa é exclusiva, pois neste caso os abjectos e vilões são unicamente os meios de comunicação, fazendo da sua audiência um aglomerado de mártires de finalidades frívolas. Atendendo ao facto do ser humano ser inquestionavelmente preocupado com o outros,  sempre que isso é meio para o seu fim, corroboro ambas.

A audiência não é incólume porque, se não se encontra satisfeita, não pugna e contribui para a manutenção desta programação unilateral. Os media porque apregoam ser o estandarte dos gostos dos seu público, quando a sua programação é o resultado de uma simbiose do útil e do agradável. Abominam a posição de perdulários e emulam a conduta do contido evitando as expensas inerentes a outro tipo de programas que não se justificam, porque o público não gosta, supostamente e convenientemente!

Exige-se demais de um alicerce social que é constituído somente por homens! É indubitável a necessidade de subsistir e para tal têm que, obrigatoriamente, agradar para que a publicidade não pereça. Condenável é o facto dessa publicidade desfrutar da hegemonia na organização e índole da prgramação. Censurável é a forma como a ambição de lograr abater os concorrentes obnubila aquela que deve ser a primeira ambição dos media: não oferecer o que a população quer ouvir mas o que tem e precisa de saber!

No tempo em que se emancipam os blogues e a supremacia é da opinião sem escrutínio ou consideração da credibilidade, é premente que os meios de comunicação se demarquem, garantindo o profissionalismo e não cedendo novamente ao proselitismo ou sensacionalismo. O paradigma deve ser o jornalismo do ilustre Pulitzer: a informação social, acessível a todos, garantindo, contudo, a instrução e educação que devem ser inerentes.

Não obstante à ameaça que a inernet representa para os media convencionais, a verdade é que mantêm a posição de monopolística no que concerne à cultura, sabedoria e informação exigindo-se portanto uma postura catalisadora. Têm uma irrefragável influência no que os rodeia: política, economia, educação, ensino e, como tal, sob a  Humanidade. Se olharmos para nós constatamos que os meios de comunicação tem negligenciado o seu trabalho. É fulcral não proscreverem o que Coreia Jesuíno um dia prescreveu: “ servir o povo na sua tripla dimensão de informar, distrair e educar, significará, pois, informar com verdade e isenção, distrair com qualidade e educar fomentando o gosto pelo raciocínio, pelo exame das causas, pela análise das situações e pelo conhecimento dos problemas”.

 


publicado por portalegreeomundo às 00:26
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