Sábado, 3 de Março de 2007

Dúvidas de quem olha mas ainda repara!

 

Não entendo o Mundo, a Humanidade, a espécie, o homem, a comunidade, a sociedade, o cidadão e a pessoa. Reconheço o risível desta hierarquia uma vez que o problema no último é a justificação para a decrepitude e defeitos nos anteriores. O que se passa com o que resta do ser racional? Para onde caminhamos e o que nos sucedeu para não nos interessar onde vamos parar e a como estaremos nessa altura?

Olho em redor  e só vejo revoltas, desaforos, desilusões, tristeza, reivindicações e manifestações fundadas nos motivos próprios ou de um grupo mas inanes para a  maioria. A subjectividade e parcialidade que nos leva a exacerbar a importância dos nossos problemas perverte qualquer razão que poderíamos ter. Será que não entendemos que viver pressupõe conviver e a última reclama abdicarmos da obsessão com o nosso umbigo? Porque será que só padecemos de uma maturidade inaudita quando o que preocupa o alheio nos é externo e distante? Porque revelamos sempre um narcisismo ignóbil? Injustiçados se somos as vítimas do que pugnamos e portanto merecedores de resolução célere do que nos angustia; objectivos, pragmáticos  e indulgentes quando é longínqua a dor que atormenta outras almas. As nossas causas são verosímeis e prementes, a dos restantes são caprichos egocêntricos que olvidam o bem comum em prol do incremento do bem-estar privado. Quem consegue regozijar-se com a actualidade que ameaça ser futuro?

Procuro desesperadamente e incessantemente por valores, princípios, integridade e probidade em quem está ao meu lado e em quem se consigna arquétipo mas sou aniquilada por um sensação confrangedora de vacuidade que o malogro em não encontrá-los facilmente me imputa. Agora tudo é relativo, os erros não são perdoados mas são menosprezados e menorizados não se reclamando a sua parte benigna - a aprendizagem. O laxismo prolifera, a anomia dissemina e tudo isto faz de nos um conjunto individualista em lugar de individualizado. A identidade está relegada à extinção e em lugar desta,  que nos protege de nos perdermos quanto mais não seja de nós, surge a megalomania pela similitude senão mesmo da igualdade desenfreada. Não valorizamos nem tão pouco nos apercebermos da preponderância da diferença sem esta ser inerente a uma raça ou povo e como tal corolário de uma divergência cultural ou física. Falo da diferença arbitrária,  de opinião, de conduta, de comportamento e de pensamento. Apegaram-se e agora dependem dessa integração na estandardização social porque receiam a solidão consequente de lutar contra a corrente. Preferem sucumbir ao refúgio e conforto questionável de ser uma ínfima parte da multidão. Perecem os dissidentes de outrora e o flagelo é iminente.

Acabaram-se as ditaduras para o mundo ocidentalizado que se auto-entitula da vanguarda; os despotismos e as autocracias das elites ou a tirania de partidos únicos e seus mentores são lembranças remotas de uma História que assegura a sua existência;  não são mais precisas revoluções que apregoem liberdade cujos sublevados não prescindiram deste indulto mesmo correndo a vida correndo riscos em prol da quimera; e o que restou destes grupos iluminados que garantiram os apanágios que agora subestimamos em conúbio com a maioria que nasceu e cresceu no sossego da segurança entregaram-se à letargia desculpando-se com a ausência de razões para se insurgir e combater!

 Não queremos ver! As guerras perpetradas por móbeis que além de infundados, abjectos serão uma realidade só minha? A fome que é trivial na maioria dos países de uma África desde sempre explorada e proscrita pelo desenvolvimento será dramatização de quem se assusta com uma tibieza impressionante e beligerante com estômagos inchados pela carência do alimento diário? A corrupção endémica que faz da conspurcação uma característica inalienável ao comum dos governos será preocupação menor e negligenciável?

A carestia que me preocupa é a de consciência. A precariedade que me aterroriza é a da moralidade.  

Não me coaduno e o que mais me assusta é conceber que sou eu que estou mal! Que as minhas premissas não passam de sofismas. Não obstante à fatuidade que será deprensível no que advogo, a verdade é que não consinto ou compactuo com a fleuma que se enraíza. Prefiro a presunção ao cinismo, a frontalidade, e inerente desagrado de terceiros e posterior afastamento ou condenação, a ser mais uma anémica atraiçoada pela hipocrisia que se assume como inelutável. Vivemos no tempo de paroxismo do aparente e superficial que neste caso não se prende com a futilidade ou supérfluo associadas à estética e ao físico, mas porque o que interessa é sermos como o consenso dita que sejamos, ainda que isso implique uma distância incomensurável do que se define de personalidade. Subservientes do convencional para que o contacto com o isolamento causado pelas ideias insignes se distancie. De um lado escolhe-se o protótipo porque a diferença é fastidiosa, do outro lado estigmatiza-se quem foge ao estereótipo. A socialização é profícua e proveitosa com quem se submete aos ditames da generalidade, se não há multiplicidade não há divergência e nós adoramos a estagnação. As ovelhas negras que, inexplicavelmente, insistem e persistem em manter ou mudar somente por respeito a si próprios são os arrogantes que pretendem humilhar os restantes.

Crucial é ostentar de forma a que seja indubitável o incremento mesmo que este esteja confinado a um materialismo lancinante, mas e a sensação de ascensão pessoal? Aquela que não é tangível, visível ou palpável para os que se cruzam connosco porque a desatenção com os outros é a doença do século?

O teatro também tem intervalos, os actores não representam a tempo inteiro, anseio pelo cansaço da protagonista: uma humanidade que fez do homem marioneta de axiomas execráveis.

 


publicado por portalegreeomundo às 00:30
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