Sábado, 3 de Março de 2007

Bing-Bang no século XXI?

 

Acreditámos ingenuamente que as rivalidades e paz ameaçada tinham perecido com a Primeira Guerra Mundial e subsequente queda dos impérios europeus; com a Segunda Grande Guerra e adjacente findar de colonialismos atrozes; e com o termine de uma guerra nunca começada mais tétrica que as restantes por ser a possibilidade nunca concretizada mas sempre iminente – Guerra Fria, todavia o panorama das relações entre países que habitam o mesmo planeta refuta qualquer esperança que algum dia a mudança implique o avanço sem retrocesso.

As amnistias e acordos de paz pretendem obnubilar os olhos dos cidadãos do mundo, insipientes porque nada sabem dos meandros das ligações entre potências, pelo seu carácter demasiadamente efémero. Os tratados parecem ser realizados para que o seus signatários os desrespeitam veladamente e muitas vezes levianamente. As plataformas de tempos remotos visando a paz entre países beligerantes deveriam ser conquistas perenes e portanto etapas conquistadas para a posteridade, mas são recorrentemente reformuladas pela inépcia de cumprimento dos seus protagonistas; Assistimos à emergência de um mundo novo que, não obstante a todas as mutações irrefragáveis, nos incute a sensação de déjà-vu.

No que concerne às metamorfoses que impingem alguma originalidade às quezílias de agora pela substituição dos mentores, obsequiamos a insurreição de um Médio Oriente deveras ambivalente. Composto por países que não mais aceitam a autoridade inexorável de um Ocidente indómito e simultaneamente constituído por países cuja debilidade faz deles vítimas anémicas dos apoios bélicos dos a si contíguos e marionetas das chantagens e embargos das potências  mundiais ditas desenvolvidas. Os países do Caúcaso e Anatólia porque inofensivos enquanto se abria a caixa de pandora para o Ocidente e Rússia foi desde sempre subestimado, agora é o problema inextricável para aqueles que julgavam que a supremacia era eterna e exclusiva de uma parte do Mundo.

A Turquia que aspira integrar a União Europeia, mas que imputa um tremendo imbróglio aos países de quem depende o beneplácito. Dicotómica porque por um lado próxima dos Europeus politica e economicamente, na medida em que faz da laicidade e economia mista características inolvidáveis, primeiros requisitos para ingressas no grupo europeu; por outro lado longínqua quer ao nível ideológico quer social. É, ainda, uma muralha inexpugnável para o ocidente marcado e preconceituoso abraçar um país maioritariamente muçulmano. Como adjuvante à panóplia de pretextos para afastar este país abstruso levanta-se também o facto de não ceder facilmente às imposições e interesses de algumas partes integrantes da União Europeia. Depois de já ter aceite muitas das condições da EU, não está disposta a abdicar da sua hegemonia no Chipre dividido permitindo à Grécia regozijar-se; A Coreia do Norte que após tempos de pertinácia e dada a carestia do país foi compelida a prescindir da sua audácia, mas que não é, ainda, sinónimo de sossego. É um país sobejamente instável porque governado por um líder tirano cujo a ambição é sair definitivamente da insignificância que o tamanho territorial lhe impõe; a Arábia Saudita que se apercebeu das adversidades da neutralidade e seus corolários e se apressa a recuperar o seu papel de insubstituível fazendo das suas fronteiras o palco para conversações pacificas israelo-palestinianas, irradiando assim a sua importância para estes territórios em detrimento da influência de um Irão ousado ; e um Irão, talvez  maior surpresa e concomitantemente preocupação da contemporaneidade. Paulatina e convictamente dispensa o rótulo de anódino de outrora, afirmando um puritanismo perigoso. Auto-suficiente a todos os níveis e isento de carência ou precariedade de qualquer índole, impede que os receosos EUA logrem a efectivação de uma chantagem com fim a que Teerão se aproxime da conduta proveitosa, à semelhança do que conseguem fazer com a Coreia, Palestina e semelhantes. Firmes nas suas pretensões nucleares não permitem aos Americanos ditarem as leis que regem Mundo e derrogam qualquer indicação dos últimos. Não consentem a posição de relegados e como tal consideram deter a mesma legitimidade que outros para prosseguir com o projecto nuclear, sobretudo quando advogam fins civis. Começam a ser desempenhar um papel crucial para diáspora xiita, apropriando-se do seu poderio bélico e financiando os contingentes xiitas de países limítrofes, caso do Hezbollah no Líbano e da minoria xiita contra a sunita no Iraque. Ludibriam o seu povo com as sua emancipação além-fronteiras fazendo-os proscrever a multiplicidade de problemas párias prementes em que o país está mergulhado, como a inflação, o desemprego crescente, a censura nefasta que faz deste país um renegado pelos cérebros que criou… Contrariando esta imagem de um Oriente poderoso, aparece um Oriente fragilizado e pungentemente dependente. O Iraque descrente e preso numa Guerra fratricida pior que as precedentes, inverteram-se os papeis de dirigentes e dirigidos, contudo a querela interna teima em persistir, erradicando e extirpando qualquer esperança de resolução definitiva e pacífica. As mortes, os ataques bombistas a universidades e escolas, carros de civis e estabelecimentos públicos são diários, Bagdad é o epicentro todavia os conflitos étnicos irradiam-se fazendo do país um autêntico campo de batalha ; o Líbano inepto na manutenção da estabilidade interna pelos apoios clandestinos de uma Síria e um Irão interessados no seu desequilíbrio. Incapaz de deter o Hezbollah assiste passivamente à disseminação das suas teias pela população ébria na sua ideologia radical e fundamentalista; a Síria que disputa com Israel  o direito aos montes Golã e subrepticiamente vai aniquilando todos os intrépidos do país adjacente, o Líbano; Israel e Palestina cujo destino de eternos inimigos é prorrogado pela arrogância de alguns dos seus líderes . Do lado de Israel, Olmert que não sucumbe ás ameaças alheias e que por apoiado pelos EUA se sente seguro, insiste no direito às suas fronteiras tal como foram estipuladas em 1967 e acima de tudo ser reconhecido como Estado; Do outro lado, uma Palestina verdadeiramente debilitada porque indigente e comandada por um partido, Hamas, cuja obsessão de vingar se sobrepõe às necessidades dos seus congéneres. Vale-lhe Siniora, presidente da Autoridade Palestiniana, cuja a indulgência e transigência impede que a paz passe a quimera.

Quanto ao Ocidente a decadência e displicência é indubitável. A EU que só agora despertou para o perigo que significa ser apoiante incondicional dos EUA e percebe que é imperória a recuperação da posição de influente denotando a existência de personalidade, relegando de uma vez por todas a imagem vergonhosa de animal de estimação da política americana; os EUA que parecem querer emular a conduta de um rival do passado - Rússia -, fazendo de países europeus a sua “cortina de ferro” através da construção de novas bases na Polónia e República Checa, mas que pela primeira vez, deixam de ser o substrato indispensável pela presença de alternativas devido a ascensão de outros países. Os seus erros não são mais proscritos nem perdoados, nem as suas prescrições verdades invioláveis. Valeu-lhes a eleição repetida de um néscio para se consciencializarem que a diplomacia é primeira alternativa e a guerra sempre hipótese remota para todos; por fim, a Rússia que goza de uma hegemonia inaudita. Primeiramente porque das suas reservas energéticas depende a maioria da Europa, depois pelo direito de veto que tem no Conselho de Segurança que, em parceria com a China, consegue gorar muitas das iniciativas filantropas dos EUA.

Os tempos que se aproximam serão certamente de uma gigantesca mudança na política mundial, a dúvida reside exclusivamente no facto de inerente a ela revivermos tempos confrangedores e pungentes que julgávamos ser para todo sempre história de um século passado!

 


publicado por portalegreeomundo às 00:32
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