Segunda-feira, 7 de Maio de 2007

Leis soberanas para súbditos submissos!

 

Os tempos são de explosão demográfica legal e, paradoxalmente, de laxismo endémico. Prescrevemos obsessivamente e incessantemente procurando impelir ou coagir a aproximação ao idóneo e o que logramos é o afastamento lancinante do arquétipo!

Imbuídos na rotina acutilante e presos nas preocupações mesquinhas e triviais, que não matam mas moem, ignoramos o facto dos nossos horizontes passarem, paulatinamente, a fronteiras progressivamente restringidas. A liberdade é deveras um valor primordial que, agora, não passa disso, porque isento de materialização. Circunscrito ao ideal não excede a inanidade. Os tempos são de obesidade galopante e preocupante, mas os estandartes de um estado de Direito parecem não padecer do mal, uma vez que o seu estado de tibieza é evolutivo!

Não pretendo a concretização da anarquia, mas também não simpatizo com o despotismo resultante de um aproveitamento sagaz dos órgão de soberania do instrumento que numa democracia faculta o controle inexorável ainda que oblíquo e dissimulado. De facto as leis são um bem benigno a qualquer sociedade salutar, todavia e como em tudo, o excesso acaba por espoletar a patologia.

Leis anti-tabagismo, leis anti-.poluição, leis anti-obesidade… são apenas algumas que pelo invólucro imanente da pertinência, necessidade e proveito obnubilam a constatação dos suas consequências mais deploráveis. Os intuitos são de louvar e valorizar: minimizar ou erradicar as doenças corolárias das respectivas práticas, garantir a existência de um estado parcimonioso que assim diminui as expensas com as operações ou curas que subsidia, evitar que terceiros sejam prejudicados pelos vícios nefastos de outros, fazer dos indivíduos cidadãos e finalmente pessoas. Não obstante às aspirações vantajosas iniludíveis, considero que as mesmas não passam de paliativos quando o que se verifica é displicência dos que as deviam acolher. Sublevam-se na aplicação das coimas ou sanções por comportamento indevido, arranjam subterfúgios para sub-repticiamente contornarem a lei, e o pior, quando cumprem o prescrito pela mesma fazem-no porque temem as represálias e não por fins altruístas.

O que idealizo aproxima-se da quimera somente porque habituados ao que nos tornamos não cogitamos sobre quem deveríamos ser! A liberdade está em vias de extinção e nós somos os maiores réprobos. Limitam-nos a liberdade e nós compactuamos com o incremento do que nos enclausura quando incapazes de autonomamente agirmos da forma apropriada. As leis são imperórias porque a Humanidade está em degeneração e, corroborando Kant, em estado de menoridade.

Era o próprio quem devia coibir-se de fumar em locais públicos se próximo de pessoas que não o fizessem sabendo que prejudicava a saúde alheia e porque os efeitos do vício, sendo uma opção sua, se devem circunscrever ao seu mau-estar; deveriam ser as crianças e adolescentes a preterirem da alimentação funesta à saúde porque conscientes dos seus resultados a longo prazo, feito exequível por meio de um processo  tácito entre educação escolar e familiar que passasse pela persuasão e consciencialização sem limiar o controle exacerbado, claro; a comunidade, ou seja os indivíduos que a constituem, deveriam proibir-se de sujar levianamente as ruas não só por motivos estéticos mas essencialmente porque a atitude diária  e permissiva é que faz do flagelo aquecimento global uma realidade verosímil;

Somos insignes porque o únicos seres providos de razão, mas depressa fizemos do apanágio apenas mais uma das imensas características que detemos. Passamos a ser iguais porque extirpamos o que nos diferencia: o poder de escolha e decisão, no fundo a autonomia! A agudização da dependência é irrefragável e esse é motivo plausível e que justifica o autoritarismo destas leis risíveis assim como a proliferação de outras congéneres!

 Confesso que para mim é difícil intelegir como, mas deve ser reconfortante e sobretudo muito cómodo sermos autómatos e submissos face ao julgamento que outros fazem da conduta perfeita. O que assevero não é uma forma camuflada de exortar comportamentos incautos e que desafiem a autoridade das leis, pelo contrário. A ambição teleológica é o decréscimo quantitativo das leis e a restrição dos âmbitos aos quais aludem, pela genealogia do indivíduo. Se a nossa máxima for susceptível de ascender a lei moral e geral, não será dispensável esta panóplia de normas sociais? A lei tem de vir de nós , não pode ser para nós!

Se concretizável tal mutação no ser humano muitas das situações confrangedoras que agora experienciamos seriam possibilidade remota relegada a um tempo passado. Em lugar da reestruturação dos serviços, aumento do desemprego consequente, supranumerários e emigração crescente como forma profícuas para evitar gastos excessivos, obliterar-se-iam os serviços de limpeza das ruas, não seriam necessários impostos exorbitantes para cobrirem as curas de um país maioritariamente doente e teríamos um Estado muito mais frutífero dedicado ao relevante e não ao que deveria ser competência exclusiva do indivíduo: o seu comportamento.

Liberdade não é fazer o que se entende sem limitação, censura ou adversidade, mas realizar e exarar o que pretendemos porque o escrutínio pessoal é suficiente!


publicado por portalegreeomundo às 22:08
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